Carta aberta ao meu fígado
Querido fígado,
Mais uma vez você foi implacável em recuperar nosso sistema biológico em vinte e quatro horas. Parabéns. Sei que ontem eu abusei, mas foi por uma boa causa. Muitas coisas boas estão acontecendo na minha vida e um método muito bem aceito pela sociedade para comemorar é ingerir álcool.
Desenvolvi um gosto refinado — e caro — por vinhos, e você sabe disso. Deveria se alegrar um pouco, pois não é qualquer coisa que eu ingiro para que você processe. Não passei pela fase do Corote, da mistura com cor de radiação; sinta-se privilegiado.
Lembra que até os seus vinte e seis anos de idade você não bebia? Sente falta dessa época?
O que posso fazer? Tivemos a oportunidade de ir para um país conhecido por beber álcool no café da manhã. Naquele primeiro jantar, em Lyon, quando a família de professores que nos acolheu nos ofereceu um vinho, nós bebemos suco de laranja. Foi ali que decidi dar uma chance aos prazeres alcoólicos. Já estava na hora de nos aventurarmos um pouco nesta vida, não é mesmo?
Foi horrível de primeira. Ainda não fazia sentido para mim como as pessoas gostavam de beber cerveja ou qualquer tipo de álcool. Vinho, principalmente. Gosto horrível.
Se eu tivesse sede, beberia suco, refrigerante ou água. Até essa época, meu cérebro pensava na funcionalidade das coisas. Ainda bem que decidi dar um basta nisso naquele jantar.
Existia o risco de eu me tornar um alcoolista? Sim. Mas, naquele momento, eu tinha a oportunidade de socializar com as mentes mais brilhantes que eu já conhecera na vida e, felizmente, o tóxico mais forte que existia ali era vinho francês. E cigarro, mas aí não dá mesmo.
Depois disso, fomos nos acostumando: um final de semana aqui, ali, uma tacinha. Em um ano, estávamos participando de feiras de vinhos, viajando pela França para conhecer vinícolas. Mas você, fraco como sempre. Ainda bem.
Não sei por que você me faz sofrer tanto.
Lembra quando começamos a viajar para a Rússia e para o Leste Europeu? Que, nos jantares dos projetos de que participávamos, a cada quinze minutos uma dose de vodka era entornada em um brinde coletivo?
No começo eu fingia, até que alguém notou. Mas, mais uma vez, eu não estava te oferecendo pouca coisa. Era vodka russa, na Rússia. Se pararmos para pensar, tomar cachaça no Brasil deveria ser mais valorizado como prática de degustação autóctone.
E aí tivemos grandes viagens para outras partes da Europa, como República Tcheca, Irlanda, Alemanha, Dinamarca e Inglaterra, onde as cervejarias têm seus próprios templos. Éramos pagos para frequentar os bares de Praga e fotografar os clientes habituais bebendo suas cervejas locais.
E você, sempre sendo um fraco. Ainda bem. Mas o paladar mudou. Ah, como mudou.
Agora somos chatos com vinho e com cerveja. Bebemos o que nos agrada, ou melhor, aquilo que nos acostumamos a apreciar. Tipo café sem açúcar, que no começo é horrível, mas depois o próprio costume anterior se torna abominável.
Querido fígado, tudo isso é para dizer: obrigado por todos esses anos até aqui. Por ter se acostumado e trabalhado tão bem. Perdão por ter abusado, raras vezes, do seu potencial regenerativo. Prometo ter mais prudência daqui para a frente.
Existem alguns eventos em que eu, provavelmente, exigirei mais de você. No entanto, prometo que valerá a pena. Até que eles ocorram, evitarei ingerir álcool.



