Se você perguntar para uma pessoa aleatória o que ela acha sobre ciúmes ela provavelmente irá dizer que não é saudável, mas que precisa ter um pouco porque senão, parece que não nos importamos com a outra pessoa. Crescemos em um mundo pautado na ideia de que ciúme é um sentimento só, mas eu não acredito nisso. Abordarei aqui um conceito de ciúme de pessoas que se relacionam afetivamente, pois podemos ter ciúmes de objetos também.
Tenho ciúme do sol, do luar e do mar! Tenho ciúme de tudo...
— Bruno e Marrone, Tenho Ciúme de Tudo (2001)
Acredito que ciúme é uma mistura de outros sentimentos e criamos a palavra, ciúme, como uma maquiagem para uma violência velada na ideia de cuidado ou proteção.
Deixa eu começar com a ideia de sentimento. Sentimentos podem ser físicos e emocionais. Por exemplo, se estou sentindo frio, é uma sensação térmica definida pelos sensores biológicos do meu corpo. Se estou sentindo tristeza, também são indicadores biológicos, mas não necessariamente conscientes. Eu não posso dizer que está me faltando vitamina ou algum hormônio porque medir a tristeza a partir de receptores biológicos é mais difícil do que olhar para o arrepio na pele.
Para medir sentimentos emocionais, é preciso traduzí-los subjetivamente para sentimentos mais atômicos. É claro que, o instrumento de medição também vai ser subjetivo. O que quero dizer com isso?
Existe um método criado por Gloria Willcox para facilitar o entendimento e verbalização das emoções que as pessoas estão sentindo. Se você atentar para o centro, verá cores primárias representando os sentimentos mais abrangentes. Buscando o ciúme nesse diagrama, vemos que ele é fruto da emoção, “FURIOSO”.
No entanto, se olharmos melhor para outras emoções, podemos pensar no que engatilha o sentimento de ciúme.
Em determinado momento de minha vida eu tive uma namorada e nosso relacionamento era à distância. Lembro que a impossibilidade de vê-la recorrentemente criava diversas sensações:
medo de perdê-la
medo de ser traído
insegurança por ela encontrar alguém melhor do que eu
irritação por não ter um determinado controle de onde estava e com quem estava
Diante disso, perceba que medo, insegurança e irritação formavam o que eu achava que era ciúme e meu comportamento era, de alguma forma, tentar controlá-la para que eu não sentisse isso mais. Foi necessário um bom tempo de reflexão, depois que terminamos, claro, para que eu conseguisse mudar meu jeito de agir e consequentemente, modificar uma crença fundamental com relação à outra pessoa na minha vida.
Ciúme não é Amor, é violência
Quando comecei enteder mais sobre o amor e sobre as relações, percebi que meus medos e inseguranças me faziam escolher um tipo de ação que tentava manipular a outra pessoa. A tentativa de controle é uma violência.
Não é porque fui criado e cresci ouvindo música sertaneja que eu preciso manter os mesmos sistemas emocionais intactos. Ainda mais se eles prejudicarem meu relacionamento comigo mesmo e com outras pessoas. Lembro de ter passado por uma situação do lado contrário também, quando uma namorada não me deixou usar uma mini-saia porque estava justa demais. Por causa da química esquemática -- tema que abordaremos em outros textos -- vemos vários casais que são mutualmente violentos nesse sentido.
Em casos mais extremos, podemos observar homens incapazes de lidar com rejeições sendo massivamente violentos a ponto de tirar a vida de outras pessoas. Recentemente, um homem de quarenta anos, atentou contra a vida de seus dois filhos e contra a própria vida porque não conseguiu lidar com o relacionamento da exposa com outra pessoa.
E se o pensamento de que essa violência é justificada pelas atitudes da mulher, vemos definitivamente que existe uma permissão do ódio. Uma vez que o ciúme é aprovado por uma sociedade inteira.
Dito isso, percebo que o ciúme reflete uma falta de aptidão para viver relações. Difere de tudo o que conheço sobre o amor e somente implementa um tipo de violência velada em forma de vitimismo.
O que a psicologia diz sobre ciúmes?
O ciúme é uma das emoções mais intensas e universais da experiência humana. Ele aparece em praticamente todas as culturas e permeia nossos relacionamentos românticos, familiares e até profissionais. Mas o que a psicologia realmente nos diz sobre essa emoção tão poderosa?
O ciúme como emoção universal
O ciúme surge quando percebemos uma ameaça a um relacionamento que valorizamos. Ele envolve uma mistura complexa de medo de perda, insegurança, raiva e tristeza. Diferente do que muitos pensam, o ciúme não se limita ao contexto romântico — ele pode aparecer entre irmãos, amigos, colegas de trabalho e até na relação terapêutica.
A perspectiva evolucionista
A psicologia evolucionista entende o ciúme como um mecanismo adaptativo que ajudou nossos ancestrais a proteger vínculos importantes para a sobrevivência e reprodução. Pesquisas nessa área apontam diferenças entre gêneros: homens tenderiam a reagir mais intensamente à infidelidade sexual, enquanto mulheres à infidelidade emocional — embora esse achado continue sendo debatido na literatura científica.
Ciúme e esquemas desadaptativos
Na Terapia do Esquema, desenvolvida por Jeffrey Young, o ciúme pode estar profundamente ligado a esquemas desadaptativos remotos como privação emocional, abandono e desconfiança/abuso. Esses esquemas se formam na infância, quando necessidades emocionais básicas não são atendidas.
Um exemplo clínico interessante ilustra bem esse ponto: uma terapeuta que sente ciúmes de sua própria paciente — não por questões românticas, mas porque a paciente possui um pai amoroso e presente, algo que a terapeuta nunca teve em sua própria infância. Isso mostra como o ciúme pode ser ativado por necessidades emocionais não atendidas, muito além do contexto amoroso.
Ciúme patológico
Quando o ciúme se torna excessivo e desconectado da realidade, ele pode configurar um quadro patológico. O DSM-5 descreve o ciúme patológico como uma característica do transtorno da personalidade paranoide, em que a pessoa:
Suspeita de infidelidade do parceiro sem justificativa adequada
Reúne “evidências” triviais e circunstanciais para sustentar suas crenças
Tenta manter controle total sobre os relacionamentos íntimos
Questiona constantemente o paradeiro, as ações e a fidelidade do parceiro
Ciúme versus inveja: qual a diferença?
É fundamental distinguir essas duas emoções, frequentemente confundidas:
Ciúme: medo de perder algo ou alguém que se tem. Envolve três partes — eu, o outro e o “rival”.
Inveja: desejo de ter algo que outra pessoa possui. Envolve apenas duas partes — eu e o outro.
A psicologia adleriana aborda como a comparação social e o sentimento de inferioridade podem alimentar tanto a inveja quanto o ciúme, criando ciclos de sofrimento que afastam a pessoa de relações genuínas.
O que está por baixo do ciúme?
Terapeuticamente, o ciúme é frequentemente visto como uma emoção secundária. Por baixo dele, geralmente existem vulnerabilidades mais profundas:
Baixa autoestima: “Eu não sou bom o suficiente para manter essa pessoa ao meu lado.”
Medo do abandono: “Se eu não vigiar, vou ser deixado.”
Necessidade de controle: “Preciso ter certeza de que essa pessoa é minha.”
Experiências passadas: traições, negligência emocional ou relações instáveis na infância.
O trabalho terapêutico eficaz costuma focar nessas raízes — e não apenas no ciúme em si. Compreender de onde vem o ciúme é o primeiro passo para transformá-lo.
O ciúme, quando reconhecido e compreendido, deixa de ser um vilão e se torna um mensageiro. Ele nos aponta exatamente onde estão nossas feridas mais profundas — e onde existe espaço para crescimento.
Se a confiança não for construída dentro de um relacionamento, não existe razão para nos relacionarmos. Criamos diversas outras desculpas e razões para que sim, mas isso é papo pra outra hora.
Me diz o que acha nos comentários. Abraços!



