Eu me sinto bem fazendo isso
Era um dia de sol na cidade onde nasci, uma manhã de inverno assim como as que estamos vivendo agora em julho. Com o sol brilhando, mas ainda frio. Eu devia ter uns cinco anos, talvez um pouco mais, mas pode ser menos. Na verdade, acho que era menos.
Meu pai era diretor da escola em que eu estudava, e também era um dos donos. Lembro que minha educação infantil teve muito incentivo artístico e em um determinado momento do período letivo, teve uma competição de pintura na minha sala.
Nosso objetivo era pintar o desenho de um palhaço.
Naquele dia eu descobriria que eu tinha uma personalidade muito competitiva, ou uma carência por atenção imensurável.
Lembro que ficávamos em fila, do maior para o menor. Portanto, eu era um dos últimos, junto com meus colegas de classe. Menos o Pedrão. Ele era um garoto da nossa idade mas com altura desproporcional. Bom, pelo menos para a nossa idade. Era tipo o Haaland, mas em vez de loiro, era ruivo e com muitas sardas no rosto.
O Pedrão ficava muito mais a frente na fila, sendo mais alto do que algumas crianças mais velhas do que nós. Nas aulas de karatê, ninguém queria participar com ele, para não levar um soco pesado sem querer.
Nos ajeitamos na fila e fizemos alguns exercícios para começar o dia.
Antes de irmos para a sala de aula meu pai iria anunciar o vencedor do concurso de pintura do palhaço. Eu ainda não estava na quinta série para desviar meu pensamento para o substantivo.
Mas pensava que alí seria meu momento de glória, que todas as crianças da escola veriam minhas habilidades artísticas e eu ganharia o concurso.
Enquanto meu pai anunciava as habilidades do desenho, eu já pensava. Vocês todos estão prestes a me descobrir. Eu estava tão feliz quanto o Mr Bean mostrando seu bilhete de avião para as pessoas.
Ao anunciar o vencedor, adivinhe, não era eu.
Aquilo acabou comigo. Acredito que muitos terapeutas usariam esse episódio para construir meu modelo cognitivo. Mas lembro que meu choro era colossal e exasperado. Nada me conformava sobre ter perdido aquela competição tão importante.
Mesmo que a pintura estivesse realmente ruim — Lembro que as pessoas falavam que eu precisava pintar dentro das linhas. Meu cérebro dizia: “Como assim dentro das linhas?”
Por isso eu acho que eu devia ter menos do que cinco anos, pois em algum momento eu lembro de conseguir tal feito.
Muito tempo passou. Mas continuei vendo a vida como uma competição. Não contra outras pessoas, mas contra todas as coisas que me impediam de ser quem eu gostaria de ser, ou ter as coisas que eu gostaria de ter, simplesmente, por ser eu.
Por exemplo, eu tinha o sonho de ser jogador profissional de tênis de quadra. Eu era fã do Guga. Daqueles que tinha poster do atleta pendurado no quarto. Mas por sorte, eu nasci com uma deficiência que me impediria de ter habilidades técnicas e disposição física para enfrentar os maiores nomes do esporte em Rolland Garros. Sorte sua, Roger.
No ensino médio eu até participei de competições em um clube onde moro atualmente, ganhei algumas medalhas, mas a limitação era evidente.
Por causa disso, migrei de esporte e treinei o suficiente para participar de algumas competições, inclusive, internacionais.
Mas quando perdi uma vaga para a seleção e a chance de representar o Brasil nos jogos Pan Americanos, por causa da falta de inteligência emocional no jogo que decidiria a vaga, resolvi voltar aos estudos e dedicar minha carreira à matemática.
Minha carreira se tornou o meu novo esporte. Eu queria saber até onde eu conseguiria chegar. Quais eram os desafios mais interessantes na minha área, quanto tempo eu precisaria focar no meu tema de pesquisa, nas noites em claro, lendo, aprendendo outras línguas, para responder uma pergunta que faria a ciência avançar um nanômetro de conhecimento.
E ao fim, eu consegui.
Conseguir significou ser derrotado muito mais vezes do que eu pude contar como como eventos considerados vitórias.
Recentemente assisti ao documentário do Rafael Nadal sobre sua carreira e sobre os desafios em se tornar o melhor do mundo. Para muitas pessoas, aquele nível de obsessão não é saudável, mas acredito que certo nível dessa desfuncionalidade é necessária para alcançar objetivo grandiosos.
O rato cozinheiro - Ratatouille - já dizia: “Qualquer um consegue cozinhar , mas só os destemidos alcançam o extraordináro”. (Algo assim).
Na série, The Bear — uma das minhas favoritas — vemos uma história caótica em busca da perfeição em meio ao caos, que em algum momento esperamos ter uma recompensa pelo esforço e obsessão de seus personagens.
Ainda tenho algumas coisa que eu gostaria de consquistar.
Elas exigem um esforço que pode não parecer saudável, mas acho que mais nocivo é ser anestesiado pelo conformismo de não ter pelo menos tentado.
Pelo menos agora eu aprendi como pintar dentro das linhas.





