Nem tudo pode ser esquecido
E sempre devemos buscar o que é belo
Já deve ser mais do que uma hora da manhã. Para alguém com muitos relógios espalhados pela mesa e escrevendo em um computador, não saber a hora exata parece até algo chistoso.
A verdade é que, meu computador está com o horário errado, agora, no canto da tela aparece 04:15, mas não é esse horário pois eu já estaria dormindo e o barulho do meio de transporte dos acéfalos ainda continuam fazendo ruídos de escape ou som alto. Normalmente eles param perto das três.
Eu poderia estar dormindo, porque estou com sono. Mas tive a ideia de escrever este texto e não quis perder a vontade. Escrever já é difícil com inspiração, então não pude deixar de sentar aqui e dedicar uma hora ou mais para escrever. Afinal, talvez eu perdesse o mesmo tempo rodando pelo feed do Instagram, me mostrando extamente o tipo de conteúdo que quero consumir.
Na minha roadtrip do ano passado, comprei uma câmera analógica. Essas que funcionam de forma mecânica e as fotos são gravadas em filme. Pode parecer uma tecnologia muito ultrapassada, mas a verdade é que ainda existe uma indústria bem forte. Por exemplo, o filme, A Odisseia, foi gravada em filmes de 35mm, mais ou menos os mesmos que usamos em câmeras analógicas. A qualidade da fotografia — dependendo da capacidade da pessoa que fotografa, claro — pode ser muito melhor do que aquelas que estamos acostumados nas câmeras digitais. Filme não tem pixel.
O equipamento que comprei precisava de manutenção, então fui à uma loja que me indicaram para consertá-la. Infelizmente, quem me vendeu a câmera estava enganado sobre fazer uma manutenção básica e a câmera acabou virando uma decoração muito cara.
No entanto, na mesma loja que pedi para arrumar, tinha uma câmera à venda e o valor era razoável. Decidi comprá-la e também comprei filmes preto e branco para ter minha primeira experiência com fotografia analógica.
O que eu acho incrível nesse tipo de fotografia é a limitação que os filmes oferecem. Um rolo de filme de trinta e seis poses custa, normalmente, algo entre cem a duzentos reais. Então, cada foto precisa ser pensada.
Não existe abundância e repetição de momentos, é um só. Uma chance. Mesmo porque regular a câmera analógica é bem mais demorado do que uma digital. O fotómetro — objeto que mede a luz de forma bem mais fácil em equipamentos digitais — não oferece a mesma precisão nos equipamentos antigos.
Eu só saberia se as fotos deram certo depois de revelá-las. E eu precisaria gastar as trinta e seis poses para isso.
A lente que veio na câmera é sensacional. Em termos mais ou menos técnicos, ela tem uma abertura que permite dar uma textura bem dinâmica para retratos, separando bem o sujeito do plano de fundo. Como estava em Curitiba, visitei minha amiga, Priscilla, e fiz um retrato dela.
Depois, ela tentou fazer um retrato meu:
Nesse dia, eu veria um concerto de uma orquestra da cidade, que teria como tema as trilhas sonoras dos filmes do Estúdio Ghibli.
A foto imperfeita até ficou boa.
O que mais gostei desse tipo de fotografia foi ter a surpresa na hora da revelação. Depois de ter acabado o filme, levou quase um ano para que eu conseguisse mandar revelar. Devo enviar o rolo para outra cidade e a oportunidade de fazê-lo nunca acontecia.
Quando as fotos chegaram, fiquei contente demais em ter acertado as configurações da maioria delas. A imperfeição se tornou perfeita, porque agora tenho fotografias que durarão para sempre. Gostaria de publicar todas aqui, mas como envolve o direito de imagem de outras pessoas e especulações acerca de minha vida que não valem o esforço, publicarei algumas.
Tenho alguns planos para um futuro próximo. Daqui dez anos, vou reencontrar essas fotos e essas crianças estarão diferentes. Terão vivido os primeiros passos da escolinha, seus pais se tornarão dez anos mais velhos e eu já estarei quase com cinquenta anos.
Até lá, pode ser que minha mãe se torne bisavó e minhas irmãs avós. Nossa família tem um histórico de fertilidade interessante e essa possibilidade não pode ser descartada, de qualquer forma, eu terei uma câmera para registrar.
Tenho a sorte de ter lindas amigas que me emprestaram suas imagens para que eu pudesse treinar minhas habilidades na fotografia. A beleza não deve ser esquecida e ela não passará com o tempo. Ouso dizer que devemos buscar sempre o que é belo. Como diz o príncipe Míchkin: “A beleza salvará o mundo”.
Espero beber muitos vinhos com meus amigos. Eu tenho fotos bem melhores que estas, mas o que acontece no Alagado, em Vegas, ou na reunião da maior concentração de IMC do sul do mundo, fica somente no compartilhamento privado dos grupos de WhatsApp.
Ainda existem fotos num outro rolo de filme e por isso vocês não estão vendo todos meus amigos por aqui.
Tenho vontade de fotografar somente com a câmera analógica agora. Quando morei em Praga, na República Tcheca, durante um período em que eu trabalhava como fotógrafo e vídeomaker em um Hostel, conheci um amigo de Hong Kong que fazia somente fotografia analógica. Quando saímos pela cidade fazer algumas fotos, fiquei observando como ele demorava mais para fazer cada fotografia, e agora entendo muito bem como é esse processo.
Eu não quero esquecer das histórias da minha vida e muito menos das pessoas que passaram por ela, por isso eu faço fotos.
Minha câmera com mais de sessenta anos de idade vai continuar me acompanhando em minhas aventuras e se nos encontrarmos por aí, vai ser uma honra te registrar na minha história.
Um abraço, e até mais.
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