O Ritual do Ponto Final
O que acontece quando o livro acaba? (E o que isso diz sobre sua vida)
Olá,
Hoje acordei com o som da chuva batendo na janela. Sabe aqueles dias em que o mundo pede um ritmo mais lento, um café mais quente e uma conversa mais honesta? Foi nesse clima, entre planos de fechar uma tatuagem e o barulho das máquinas trabalhando ao fundo, que uma pergunta de um primo me fez parar para refletir: “O que você faz logo depois que termina de ler um livro?”
Pode parecer uma pergunta simples, mas a resposta carrega o peso de como escolhemos viver nossas experiências.
Por muito tempo, eu fui como a maioria: fechava o livro, colocava na estante e passava para o próximo. Uma busca incessante por volume, por “checklist”. Mas percebi que, ao fazer isso, eu perdia o que o livro tinha de mais precioso: a conversa dele comigo.
Recentemente, adotei uma prática que quero compartilhar com você. Assim que termino a última linha, eu não guardo o livro. Eu pego uma caneta — muitas vezes emprestada, como aconteceu no balcão de um bar outro dia — e escrevo na última página. Escrevo a data, o lugar onde estou e, o mais importante, o que eu senti naquele exato momento.
Não busco uma análise técnica digna de um crítico literário. Eu busco a verdade bruta. O que aquela história removeu de lugar dentro de mim?
Minha última conversa foi com “A Morte de Ivan Ilitch”, de Liev Tolstói. E vou te dizer: foi doloroso. Tolstói tem essa capacidade quase sobrenatural de nos colocar dentro do quarto, sentindo o cheiro da angústia e o peso do arrependimento de um homem que vê a vida escorrer pelos dedos.
Ler sobre a morte de Ivan me trouxe uma lucidez que nenhuma planilha de produtividade jamais traria. Ao encarar a finitude do personagem, eu encarei a minha própria. E, curiosamente, isso não é triste. É libertador.
Quando aceitamos que o tempo é finito, a correria desenfreada perde o sentido. Aquelas ambições que nos roubam o sono e nos fazem atropelar o presente começam a ser questionadas. Para que tanta pressa, se o destino final é o mesmo? Essa percepção me trouxe uma paz estranha e necessária para recalibrar o que eu realmente quero para o meu futuro.
Mas há outra lição que tirei desse momento e que quero deixar para você hoje: o movimento vence a perfeição. Enquanto eu gravava minhas reflexões para vocês, havia barulho de máquinas de construção ao lado. Eu poderia ter esperado o silêncio perfeito, a iluminação ideal, o momento em que eu estivesse “pronto”. Mas se eu esperasse o cenário perfeito, você não estaria lendo este texto agora.
A vida é como esse ritual de leitura. Ela acontece nos intervalos, nos bares, nos dias de chuva e em meio ao barulho. O que importa é o que você registra disso. O que importa é a marca que você deixa no papel e a marca que a experiência deixa em você.
Minha provocação para você esta semana é: qual foi a última experiência que você realmente “encerrou” com uma reflexão? Não passe pela vida como quem apenas folheia páginas sem ler as entrelinhas. Pare. Sinta. Escreva. E, acima de tudo, aceite que a luz pode ser encontrada mesmo nos momentos de sombra.
A morte de Ivan Ilitch nos lembra que a vida existiu, mas que ela vai embora. Não deixe a sua ir embora sem que você tenha, ao menos, parado para notar que esteve aqui.
Com coragem e movimento,
Pedro
Vídeo que inspirou este texto:



