Um bonito poema
A viagem que fiz nas minhas férias, com minha mãe e minhas tias, mudou algo em mim. Assim como todas as outras viagens que já fiz. Só que essa foi um pouco diferente. Estive em contato com três gerações de minha família, com percepções de mundo diferentes, com jeitos de viver a vida de forma distinta.
Era uma tarde como qualquer outra, quando fui cortar o cabelo no meu amigo Andy. O que eu acho legal é que ele também é um leitor. Não tenho muitos amigos homens leitores. Então, quando vou cortar o cabelo é um evento em que eu posso discutir com ele sobre livros e outras coisas da vida.
Na última vez, estava calor e depois do corte fomos ao bar da esquina tomar uma cerveja gelada. Bebíamos enquanto conversávamos e víamos os carros passarem pela rua meio deserta. Acho que era um final de semana ou véspera de algum feriado.
Ele me recomendou um livro chamado, Vagabundos Iluminados, do Jack Kerouac . É um livro interessante onde a vida de vagabundo parece bem interessante. Não pense em vagabundo com a conotação pejorativa, mas como alguém que vaga pelo mundo e aproveita das suas possibilidades.
O autor tem um jeito simples de escrever. Assim como eu, eu acho. Como alguém que conta sobre seus dias e experiências de um ponto de vista em primeira pessoa, sempre.
Uma coisa que eu não gosto na engenharia de Deus sobre a vida das pessoas é a forma com que elas podem morrer. Acredito que ninguém deveria sofrer na hora da morte, a vida deveria ser simplesmente ceifada, como um susto ou um desmaio, principalmente, para aquelas que gostariam de continuar vivendo e precisam acompanhar a própria morte.
Eu dirigi muito.
Só que eu gosto de dirigir. Semana passada fui levar minha mãe na casa da minha irmã numa cidade vizinha e voltei durante a noite. O céu estava limpo e muito estrelado, em alguns momentos era somente eu na estrada. A música no rádio, o asfalto, eu e as estrelas.
Dirigir é quase um momento terapêutico, ainda mais se for fora da cidade. Nas vias urbanas eu xingo mentalmente, então é bem mais terapêutico se for pensar bem.
Numa das minhas leituras por aí, me deparei com o seguinte poema. O original é em inglês e tomei a liberdade de traduzir.
A Jornada
Mary Oliver
Um dia, você finalmente soube
o que tinha que fazer, e começou,
embora as vozes ao seu redor
continuassem gritando
seus maus conselhos —
embora a casa inteira
tivesse começado a tremer
e você sentisse o velho puxão
em seus tornozelos.
“Conserte a minha vida!”
cada voz clamava.
Mas você não parou.
Você sabia o que tinha que fazer,
embora o vento escavasse
com seus dedos rígidos
os próprios alicerces,
embora a melancolia deles
fosse terrível.
Já era tarde
o suficiente, e uma noite selvagem,
e a estrada cheia de galhos
caídos e pedras.
Mas pouco a pouco,
conforme você deixava as vozes para trás,
as estrelas começaram a arder
através dos lençóis de nuvens,
e houve uma nova voz
que você, lentamente,
reconheceu como sendo a sua,
que lhe fazia companhia
enquanto você avançava cada vez mais fundo
mundo afora,
determinada a fazer
a única coisa que você podia fazer —
determinada a salvar
a única vida que você podia salvar.





