Um lugar chamado Saudades
Eu tinha escrito metade deste texto quando decidi apagar e começar de novo. Exercitar a escrita é uma atividade mais difícil do que parece, e começar uma nova publicação exige algum tipo de método que vai além da criatividade.
Isto é um blog. Para quem tem mais de trinta anos, os blogs eram uma espécie de rede social, que ainda tem alguma força na atualidade. Aqui é um lugar onde escrevo sobre minhas memórias e perspectivas de mundo em um determinado período no tempo. Às vezes, apago o que escrevo; outras vezes, deixo.
Ao ler o livro “Sobre a Escrita”, de Stephen King, no qual ele meio que dá um curso sobre como escrever bem, percebi que ele tem um estilo eficiente e direto ao ponto.
Quando ele escreveu sobre a própria infância, pude entender como o autor se tornou escritor. Suas primeiras tentativas, copiando histórias em quadrinhos e tentando vender suas narrativas na escola, são as melhores partes do livro.
Ele descreve quais foram os desafios em cada fase da sua vida. É tão interessante que, além de ensinar sobre escrita, Stephen consegue transmitir uma motivação que me fez querer escrever sempre.
Dessa forma, acho pertinente que eu escreva algumas memória de infância que me darão insumo imaginário e criativo, buscando imagens e sensações de um tempo bastante remoto, mas não tanto tempo atrás quanto parece ser. Hoje conto um pouco sobre um lugar que tem muita importância na minha vida e na formação do que eu entendo como família.
Estive em Saudades no último fim de semana. Era feriado na quinta-feira e resolvemos visitar os parentes.
Minha mãe nasceu lá, e algumas irmãs dela ainda vivem na cidade.
É um lugar especial para mim.
Quando criança, íamos algumas vezes, quando era possível. O riacho perto da casa da tia Marlene e do tio Celso foi palco das nossas brincadeiras nos dias quentes de verão, quando chegavam as férias escolares.
Foi nesse riacho que descobri como é a dor de uma picada de abelha. O belo ser da natureza pousou no meu chinelo, e eu o vesti sem perceber. Bem embaixo do pé.
Eu tenho muitos primos. Para você ter noção, minha mãe tem seis irmãos e mais três irmãs. Dessa quantidade de gente, vieram as primas e os primos. É impossível manter contato com todos e, desses, ainda vieram os primos de segundo grau.
As festas da família são uma loucura.
Foi em Saudades que pedi minha primeira namorada em namoro, quando fomos ao casamento de uma prima minha.
Também foi em Saudades que aprendi que existem dores maiores do que qualquer dor física e que o nome da cidade faz mais sentido toda vez que passo pela primeira lombada da estrada que sai de Pinhalzinho em direção à cidade. Todo mundo que já perdeu alguém sente saudade de um jeito diferente.
Também foi em Saudades que aprendi que a vida continua.
Foi lá que, quando adolescente, me apaixonei pela filha do vizinho do meu tio. Essa história rende boas risadas até hoje.
Enfim, Saudades é aquela cidade pequena que parece ter saído de um seriado de televisão, com ruas limpas e muitas árvores, onde, nos dias de calor, as pessoas ficam na praça ou fora de casa tomando chimarrão e comendo um pé de moleque. Como toda cidade pequena do interior, tudo que acontece é evento ou fofoca.
É minha cidade favorita para renovar as energias e lembrar que existe um mundo calmo e tranquilo.
E, cada vez que vou embora, o que fica é saudade — lá e aqui.
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